Conversas sobre tudo o que a vista alcança e sobre pinturas também, da autoria de Costa Brites

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Sexta-feira, Outubro 21, 2005

Serralves em Coimbra, Serralves na Figueira da Foz

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Obra de António Palolo exposta na Fª da Foz; Acrílico s/ tela, "Sem Título", 100 x 180 cm

publicado no Diário de Coimbra no dia 21 de Outubro de 2005
Tendo visto anunciados os dois acontecimentos constituídos a partir de obras pertencentes às colecções de Serralves, uma no Pavilhão Centro de Portugal e outra no Centro de Artes e Espectáculos, nada mais natural ter pensado que valeria a pena visitar ambos, lamentando que as duas exposições não sejam motivo de apreciação conjunta de pessoas que pudessem tecer a seu respeito um interessado debate.
Em torno das designações de “arte moderna” e “arte contemporânea” florescem os equívocos, prevalecendo a utilização subjectiva e oportunista de uma e de outra, não desejando ninguém ficar de fora no momento de se reivindicar como apreciador e adepto de qualquer delas.
O século XX foi caracterizado por uma aceleração tremenda dos acontecimentos em todas as áreas, e julgo que não houve ainda tempo para dominarmos uma imensidade de aquisições riquíssimas que já vão sendo, com demasiada precipitação, lançadas para zonas de sombra da apreciação colectiva.

Em Coimbra, arte pobre

A mostra assim designada patente em Coimbra parece representar, para a época trepidante e já “remota” a que se reporta, uma espécie de reverso da medalha duma cavalgada ofegante e contraditória de realidades artísticas e sócio-culturais de certo tipo, gesto de actores insatisfeitos no palco da representação artística ou invulgar processo de contestação do “establishment”.
Será aquilo arte? Se nós quisermos, será, pois claro.
E se eu for buscar ali ao ferro velho uma cama enferrujada, e lhe puser em cima uma trouxa de trapos velhos, também posso dizer que são arte?
Aí o caso complica-se. Porque aquela cama de ferro velho que está no Pavilhão do Centro de Portugal não é uma qualquer. Eu não sou grego, nem me chamo Kounellis, nem tive a ideia antes, nem estava lá perto de quem pôde dizer com a autoridade crítica, um alto comissário talvez, que aquilo era arte e que viria parar a Serralves!...
A contestação, se o foi, acabou por resultar com todo o êxito, dado que acabou por ser “assimilada”, e de que maneira, pelo mesmíssimo “establishment”.
Não quero evocar com detalhes a circunstância de a minha cama de ferro velho ter um valor patrimonial zero, face ao “valioso” espécimen de Kounellis. Dessas coisas de dinheiros, em artes, não se fala porque parece mal, ainda que sejamos nós a pagar, como é o caso de uma colecção pública e fortemente subsidiada.
Levantar questões destas é para quem quiser pensar pela própria cabeça e nenhum jovem licenciado em humanidades à procura de emprego em instituições culturais deverá assumir tal risco.
A menos que esteja bem preparado para responder àquela questão que às vezes é feita nas entrevistas de contratação, depois de apresentado o “curriculum”:
– E além disso, você conhece “alguém”?

Na Figueira da Foz, o Plano atravessado

A mostra que é apresentada na Figueira da Foz é totalmente diferente. Ali já podemos pressupor o vulto do artista no espaço oficinal respectivo, muitos frascos com tinta e a floresta de pincéis no chão ou sobre a mesa.
Os quadros, ou pinturas, ou objectos, são igualmente desafiadores do conceito tradicional ou académico. Existem, no entanto, os mais evidentes sinais de um “exercício excelente” da produção de peças únicas ou seja, da “materialização” do objecto estético.
O evento goza do esplêndido conforto do edifício em que se encontra, e nem lhe falta um razoável catálogo que está à venda na livraria residente.

Em França, o centro do mundo e os novos (velhos) academismos

O comentário adequado destes acontecimentos teria de passar fatalmente pela citação de uma inesgotável quantidade de posições e polémicas oriundas, “et pour cause”, de Paris de França, pelo menos. É pena não haver espaço para tal, pela abundância de argumentos que se tem acumulado em torno da discussão crítica da questão.
Limito-me a referir a importância crescente e tentacularmente exclusivista que a afirmação da “arte contemporânea” tem tido entre nós, nos últimos anos, averbando os principais gestos de investimento e promoção pública das artes.
Uma maioria dos mais dignos e recentes espaços culturais está-lhe dedicada, o que não se passa, “mutatis mutandis”, de forma tão depreciativa para o pluralismo e variedade de perspectivas em Madrids, Parises e outros “centros do mundo”!...
Ou seja, uma sociedade que passou pela vastíssima modernidade de olhos baixos, como a nossa, parece disposta a render-se à contemporaneidade, sem saber de facto o que quer dizer uma e outra coisa.
Valerá a pena referir que algumas das ideias e princípios directores da arte “contemporânea” já datam de há quase um século, o que lhe retira de forma absoluta o odor de novidade e lhe acentua a semelhança com os persistentes academismos de outras épocas, que o tempo foi varrendo, ao fim e ao cabo.
Serralves em Coimbra e na Figueira da Foz, a não perder!...

Sábado, Outubro 01, 2005

A “Paleta Inacabada” de Telo de Morais e duas exposições de Verão

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publicado no Diário de Coimbra no dia 01 de Outubro de 2005
Telo de Morais entregou-me o seu livro às portas dum Verão alucinante e eu juntei-o à bagagem confusa duma saída para dentro, simulacro de férias que nunca são, pretexto de evasões inconsequentes e breves.
Por sobre os textos da obra fiz, como tantas vezes acontece, um voo rasante à máxima velocidade dos motores da curiosidade e da surpresa.
Ficou-me uma primeira página do prefácio de Rocha de Sousa, encadeado de conceitos que apontam em todas as direcções do encanto e da razão dos sentidos, no múltiplo significado que a palavra tem.
Em Rocha de Sousa cada frase é como o obturador vertiginoso que abre sucessivos planos sem dar tempo a um para que se fixe o outro, gerando a totalidade de impressões uma fecundidade intertextual que convida à reflexão, e ilumina o mundo de policromias sem margens.
Ficaram-me depois a sucessão de intervalos fotográficos que a obra apresenta, sugestão de dramatismos celestes, “retratos de céu” que sugerem um instante suspenso, algures, entre a plenitude da tarde e o segredo de horizontes inquietantes, embalados de negro.
Por fim as trinta visitações da sempre inacabada paleta, resultantes dum pluralismo de gosto sem preconceitos e duma memória sem fronteiras que convidam à análise, linha por linha, dos referenciais vividos e das sensações participadas.
O livro de Telo de Morais fornece, nesse sentido, não uma legenda explicativa, um amparo caracterizador ou itinerário do gosto. Cada texto é como que uma corda musical deixada a vibrar por ondas de choque da visão complexa de pinturas, desenhos, etc, e da teia de relações que tais objectos mantêm com a própria vida.
Os nomes, as referências factuais e de contexto serão, ao gosto e de acordo com as armas de cada um, pontos de partida ou de chegada, ancorados algures entre a visão crítica e a sensibilidade poética.
Ter assumido o risco de mencionar, junto de cada texto, o nome ao qual o mesmo diz respeito, remete para o carácter que a obra tem de referencial de uma forma de arte e de um tempo simultaneamente próximos e longínquos do nosso. Tempo nosso habitado por homens que se apressam, talvez precipitadamente, em colocar na prateleira do passado um imenso património semioculto e precioso.
A “Paleta Inacabada” de Telo de Morais vem precaver-nos contra o risco do esvaziamento e da ausência. Mas não é só por isso que continuo a lê-la, agora que se despede o Verão.

O Chiado com Torga e o Pavilhão de Portugal com Inês

O Museu do Chiado apresentou “Novos Olhares” que reuniu principalmente obras de artistas que cursaram a EUAC, no espaço concentrado de que a galeria dispõe.
Telo de Morais, no texto de catálogo, efectua um trabalho generoso e muito atento que pretendeu compatibilizar as obras expostas com o universo Torguiano, que alguns visitantes terão tido dificuldade em associar com o clima estético que a exposição propunha.
Julgo não ser essencial a concretização de tais associações, se cada uma das peças puder trazer-nos algo, mesmo que francamente alheio às vivências imediatas que a literatura de Torga sugere.
O mesmo risco não corre, por exemplo, a exposição que esteve patente no “Pavilhão Centro de Portugal”.
O tema eleito, “O nome que no peito escrito tinhas”, cingiu-se bem à teia de significados propostos pelas obras vistas sem perda de variedade e interesse das abordagens estéticas.
Já são várias as exposições de qualidade que vi naquele pavilhão e que beneficiam do luxo de espaço e luz natural indirecta que a notável peça arquitectónica proporciona.

Exposições colectivas e riscos inerentes

Certas exposições colectivas, sejam ou não de Verão, transportam consigo, por vezes, uma contradição esquisita que contraria uma das mais simples regras da matemática: a de que um conjunto é perfeitamente igual ao somatório das partes.
Há obras que se “desajudam” tanto umas às outras, que fazem com que “tirá-las” teria sido melhor do que “pô-las”, o que conduziria ao drama de haver mostras representando autênticos “conjuntos vazios”, o que não é de modo nenhum o caso vertente.
É certo que Ana Vidigal, Catarina Campino, Joana Vasconcelos e Rui Sanches por um lado e Costa Pinheiro, José de Guimarães e Pedro Proença por outro, não deixam de ser astros de galáxias muito distantes.
Mas as engrenagens alusivas que cada um elabora na perspectiva do tema permitem não somente uma viagem através do drama Inesiano, bem como propiciam localizar as coordenadas de evoluções plásticas e ideológicas bem colocadas no devir das artes visuais.
Nem todas as exposições têm, contudo, os meios que poderá ter tido esta, com tão altos patrocínios e com tão amplo terreno de escolha das obras a mostrar.
A Exposição reparte-se por dois conjuntos, patentes em Coimbra e Alcobaça, sendo desejável que se efectue uma rotação dos mesmos, sem o que ficará truncada a imagem que nos fica da totalidade do acontecimento. Aguardemos pois.

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