Conversas sobre tudo o que a vista alcança e sobre pinturas também, da autoria de Costa Brites

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A minha fotografia
Costa Brites
Coimbra/Lousã, Portugal
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Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

Uma imagem e muito menos que mil palavras...

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A publicação destas crónicas tem tentado preencher uma certa escassez de opinião no domínio das artes plásticas, chamando a atenção para uma área de interesses que é geralmente remetida para uma zona muito pouco iluminada do espectro da comunicação social.

Tais crónicas fazem parte dum mais alargado número que se encontra “arquivado” na minha página pessoal, e encontram-se aqui publicadas enquanto não transitam para esse mesmo local, dado que o “blog” é operado e transformado por mim em qualquer ocasião e a página pessoal é, tecnicamente, de mais difícil acesso.

A ilustração deste “post” reproduz um trabalho de minha autoria, e é uma pequena “gratificação visual” para aqueles que tiverem a gentileza de aqui entrar. Se desejar vê-la ampliada, basta clicar sobre a mesma.

Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

O Passado ao Espelho, máquinas e imagens das vésperas e primórdios da Photographia

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vista parcial do desdobrável que apresenta o Museu da Física (Universidade de Coimbra)

Publicado no Diário de Coimbra de 25 de Janeiro de 2006

No Museu da Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra tem estado patente ao público uma excelente exposição assim inspiradamente designada por Alexandre Ramires, com toda a experiência e conhecimento que lhe são reconhecidos no domínio da história da fotografia e da utilização das imagens.
Traz-nos documentos de preciosa e pitoresca referência ao imenso dealbar da photographia, perdão, da fotografia, e que estimulam a apreciação do novo relacionamento com as imagens que a nossa civilização tem empreendido.
No painel de entrada encontra-se a ampliação dum daguerreótipo executado há mais de 150 anos com uma visão de Santa Clara tal como era naquela remota primeira metade do século XIX.
Chamei-lhe não “um documento” ou “um aspecto”, mas “uma visão” de Santa Clara. É que entre o objecto histórico que trouxe a imagem até aos nossos dias e a sua ampliação a uma escala impensável para os seus contemporâneos, interpôs-se o processo inteligente da sua “escolha” como referencial, autêntica “figura de convite”, preâmbulo ou desafio de quem entrasse para ver.
Por acasos técnicos inerentes à sua antiguidade, uma espécie de cortina ondulante avança sobre a larga paisagem do lado esquerdo e há zonas de erosão em seu redor que lançam sobre o conjunto uma inquietante sensação de mutabilidade. Uma mais demorada reflexão permite pensar numa abertura para a indeterminação ou interferência da subjectividade…
O que significa que tudo o que a exposição documenta, acrescentado por tudo aquilo que entretanto se passou e abre para um futuro sem margens, resulta sempre da qualidade das opções que são feitas, perante cada caso concreto, dos meios que surgem ao nosso alcance.
Alexandre Ramires, ao ter escolhido aquela “photographia” e não outra, efectuou uma escolha para dar ideias, não apenas sobre a resultante de certos descobrimentos surpreendentes, mas do uso da visão para construir uma imagem de nós próprios na envolvente do mundo que nos cerca.

Almeida Garret, em pessoa!...

Entre daguerreótipos presentes há um que retrata Almeida Garret.
Confesso que sempre achei ingénuas e decepcionantes algumas das configurações idealizadas da figura deste expoente das nossas letras.
O invento de Daguerre fornece, apesar da sua antiguidade, resultados surpreendentemente eficazes de veracidade, como comprovam certas ampliações que delas é possível efectuar.
Olhar para Almeida Garret com toda a calidez dum rosto enigmático, mas fortemente expressivo, produziu-me uma emoção estranha e indescritível. A mesma que, ao tempo em que o invento ocorreu, assustou tanta e tanta gente que preferia não olhar essas estranhas imagens que, dir-se-ia, transportavam no brilho do olhar a própria vivacidade da alma.
Para além dos documentos que comprovam a celeridade com que a Universidade de Coimbra (única ao tempo em todo o nosso território) reconheceu e divulgou as novas descobertas, a mostra efectua uma contextualização cultural atendendo a antecedentes e consequentes, algo sugestivo do que se chama a “adesão às novas tecnologias”, variante da abertura a tudo o que é novo, mas sabendo escolher entre o que é interessante e produtivo e o que é supérfluo ou de falso efeito.

O lixo visual e o aviltamento dos imaginários

Depois do encontro com a lanterna mágica, com o microscópio de projecção, com as câmaras e vistas ópticas, a estereoscopia, a câmara obscura e a câmara lúcida; depois de aflorar o universo de certas palavras mágicas, os calótipos e papéis salgados, o colódio e as albuminas, as “mouse trap” de Fox Talbot; depois de rememorar nomes de insignes agentes de cultura – alguns injustamente esquecidos – como Antonino Vidal, Joaquim Augusto Simões de Carvalho, Joaquim Possidónio Narciso da Silva, o visitante será impelido a questionar a abundância sem limites de imagens nos dias de hoje e as opções a fazer perante a oferta devastadora que tem ao seu alcance.
Será que conseguimos fugir de forma eficaz à trivialização da imagem do mundo, evitando o empobrecimento ou até aviltamento do nosso próprio imaginário?
Saio da exposição já tarde escura, entro num luxuoso (mas atrasado) autocarro munido de écran que despeja imagens promocionais surtidas de “spas”, “health resorts” e “trainning centers” por sobre uma multidão sisuda de cidadãos ansiosos de chegar algures.
Passo ainda pela fachada da catedral futebolística da cidade, agora com a sua “óvnica” arquitectura cada vez mais submersa por estridentes painéis publicitários com centenas de metros quadrados de imagens sem nexo ou cabimento estético-urbanístico.
Recordo o que me disse Alexandre Ramires a respeito da preservação da memória e da invasão, sem lei nem gosto, do lixo visual.
Oh, como adoece o horizonte entre bosques queimados e anúncios de coisas vãs!...
Oh, que falta sinto de um cidade capaz de acolher hospitaleiramente o meu olhar, sem a buzina esquizofrénica das coisas que não preciso e a beleza artificial dos estereótipos sem alma!...

Segunda-feira, Janeiro 09, 2006

Acabar muito bem o ano sem ter de ir a um “réveillon”

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Trabalhos de Betty Woodman presentes na exposição no MNA, "Vista de uma janela no Verão", jarras divididas, faiança vidrada, resinas epóxidas, laca e tinta; 103x98x26 cm

publicado no Diário de Coimbra no dia 9 de Janeiro de 2006
Julgo que uma das tarefas mais difíceis para o cidadão dos dias de hoje é a de procurar libertar-se das fatalidades mercantilistas e mediáticas que nos “oferece” a sociedade.
Inicialmente destinadas a tornar fácil, aprazível e, se possível, requintada “a qualidade de vida”, certas encenações parecem-me, cada vez mais, rituais monótonos e completamente anestésicos da consciência activa, seja o que for que assim procure designar-se, com a única virtude aparente de constituírem “bons negócios”.
O Natal e o fim de ano são um período ideal para exercitar o direito, ou melhor, o privilégio, de “fazer outra coisa”, de “não ir por ali”, não tendo de nos sentirmos frustrados por não haver absolutamente nada que comemorar.

Sintra, para ver algumas coisas raras

Sintra está visto. Mas muitos do que falam assim nunca foram ao Parque de Monserrate, passeando calmamente através da humidade preciosa que alimenta fetos, cascatas, árvores assombrosas e o antiquíssimo relvado, de forma a estarmos ali como num cenário de outro mundo. O palácio em si, contrariamente ao que nos afirmam folhetos e oficiais de turismo aparentemente muito conhecedores, não é visitável. Mas esse é apenas um de não poucos disparates a que terá de habituar-se o visitante do nosso património artístico e cultural.
Poucos metros à frente, a Quinta da Regaleira, em cenário fantasioso oferece a ressonância dúbia de secretas e ocultas mitologias, essas nada menos que exóticas.
No Sintra Museu de Arte Moderna (por quanto tempo ainda museu, e por quanto tempo ainda de arte moderna?) encontra-se uma magnífica exposição (Fernando Lemos e o Surrealismo) que efectua o cruzamento muitíssimo bem documentado da obra daquele grande artista com um conjunto riquíssimo de obras do referido movimento que pertencem à colecção Berardo. Apoiada por um excelente catálogo de preço moderado, proporciona uma longa e proveitosa visita, através não apenas de salas espaçosas e abundantemente preenchidas, mas também de uma época e de um tempo cujas implicações e potencialidades culturais e estéticas se encontram bem longe de estar prontas para a ultrapassagem da indiferença ou para a heresia da insensibilidade. Para ver até 30 de Abril.

A planície de Setúbal e os seus inesgotáveis horizontes

E a península de Setúbal, também está visto? Por mais que se regresse e sempre que se explore, concluir-se-á o contrário.
À Quinta da Bacalhôa, em Vila Fresca de Azeitão, acontece um pouco o mesmo que ao Palácio de Monserrate. Está tudo muito bem explicado num folhetozinho raro, que é preciso marcar visita com 24 horas de antecedência, mas se não fosse a gentileza tolerante de quem toma conta, bem tínhamos dado com o nariz na porta. Valeu-nos na canseira de andar à procura da visita um restaurante mesmo ao lado que não deixa ficar por mãos alheias a hospitalidade gastronómica dos povos da região, o belo vinho e a simpatia do acolhimento.
Do cimo do castelo de Palmela vê-se quase todo o mundo, incluindo terra, mar e céu. E também se vê Setúbal, que é para lá que vamos deixando atrás uma riqueza imensa de monumentos, igrejas preciosas recheadas de painéis de azulejos, paredes de branco ancoradas na terra plana do que já é, sem equívocos, terra alentejana.
Numa casa minha conhecida, o antigo edifício do Banco de Portugal, espera-me outro momento de entusiástico requinte: a exposição “Descobrir o Japão, de S. Francisco Xavier a Wenceslau de Morais” contém, além de outras coisas, um conjunto de estampas japonesas da colecção de Manuel Duarte Paias, apresentado como “o armário milagroso” de Wenceslau.
Tais gravuras (Ukiyo-e, expressão japonesa que significa “imagens do mundo flutuante”) terão, segundo alguns, origens numa visão budista da vida, e são certamente imagens do mundo que passa ou cenas da vida corrente em visão mais vulgarizada.
O que lhes não falta contudo é uma inenarrável beleza, manifesto inesgotável e transbordante da observação penetrante e sublime duma cultura distante e distinta, saturado duma aplicação ao trabalho estético que empolga e inspira. Mostra patente até 28 de Janeiro.

O Museu do Azulejo, mais uma vez, porque não cansa

Os azulejos reflectem, à nossa medida e de acordo com o sentido criador da nossa sociedade, imagens dum certo nosso “mundo flutuante”, com tudo o que a expressão possa carrear consigo de leveza poética. Não tão estrenuamente disciplinada, tantas vezes decadente e até vilipendiada, é essa a nossa versão das coisas e não adianta chorar.
Para além dos trabalhos de história, conservação e restauro já patentes em Lisboa na Igreja da Madre de Deus, muito bem documentados num livro que podia comprar-se em Dezembro com desconto especial, no Museu é possível ver-se ainda até 2 de Abril uma excelente exposição da artista americana Betty Woodman que, por si só, mereceria uma outra crónica por inteiro.
A mostra, muito poderosamente patrocinada, parece-me no entanto sofrer do mal de muitas coisas belas e excelentes que existem neste nosso precioso rectângulo: muito se fala da parra seca e muito pouco se diz da uva sumarenta.
É por essas e por outras que eu passei o ano em boa companhia, comentando com regalo a leveza poética do “Cirque du Soleil” que deu no segundo canal, evitando a selecta carraspana dum qualquer caro “réveillon” de requintes duvidosos e vinho espumoso fora do prazo de validade, já para não falar na miserável programação televisiva dos solitários, dos pobres e dos esquecidos que só vêem os canais da “grande” audiência político-futebolística.


capa da exposição referida, AERSET - Edif B. de Portugal, Setúbal

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