Conversas sobre tudo o que a vista alcança e sobre pinturas também, da autoria de Costa Brites

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Coimbra/Lousã, Portugal
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Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

Os painéis de azulejos da estação do caminho de ferro da Lousã, o que esteve antes e o que estará depois

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Uma visita feita à estação de caminho de ferro da Lousã diz muito mais ao cidadão atento aos valores do património no seu sentido lato do que ao artista cativado pela ideia de uns simpáticos painéis de azulejos.
Os 100 anos comemorados acentuam a noção de que nos encontramos perante um património objectiva e subjectivamente valiosíssimo, da época fantástica da expansão da ferrovia.
A totalidade do espaço ocupado pela estação, remetido à época que a viu nascer, revela amplidão de horizontes e de fé no futuro, os quais poderão certamente associar-se à melhor tradição do espírito produtivo da Lousã.
Oxalá que um tal conjunto possa ser mantido em todos os elementos que o caracterizam, se possível restaurados nos aspectos em que começa a tornar-se mais notória a sua degradação: além do mais, o “cais coberto”, exemplo que se torna raro dos edifícios de trabalho que tão numerosamente têm sido destruídos em Portugal, com o gabarito respectivo, a balança e um guindaste de operação manual, portentoso vestígio de arqueologia industrial, magnífico na singela inutilidade a que as modernas tecnologias o remeteram.

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Sobre os azulejos

Os azulejos que se encontram na estação da Lousã, eles também carentes de cuidados de restauro, não são propriamente “painéis de azulejos” no sentido mais enobrecido que se dá ao termo.
As cercaduras, construídas com azulejos de série, nada têm a ver com o motivo central, não são do mesmo estilo nem da mesma técnica, sendo notório o facto de não serem das mesmas dimensões entre si, o que obrigou a pequenas manobras de aplicação, especialmente visíveis nos dois conjuntos centrais. Tais cercaduras, formadas por um encadeado singelamente decorativo de flores e folhas, são encimadas por medalhões que pouca qualidade acrescentam ao conjunto.
As três placas de azulejos que mostram a palavra Lousã, ao centro e nas paredes laterais da gare, têm cercaduras com o mesmo padrão, mas em azulejos visivelmente mais recentes, de vidrado liso e já não relevados como os das cercaduras restantes.
Os motivos centrais, ao gosto de ilustrações da época ou bilhetes postais, não se encontram datados nem assinados por Jorge Colaço, contendo a indicação, isso sim, de que foram produzidos nas “oficinas de Jorge Colaço – Cª das Fªs. Cª Luzitânia”, o que é diferente, como a sua execução amplamente denuncia.
Se os interessados visitarem por exemplo a estação de S. Bento no Porto, decorada com os seus espampanantes vinte mil azulejos historiados, assinados pelo artista, ou os painéis do Grande Hotel do Buçaco, do mesmo autor, e fizerem a comparação com estes da estação da CP da Lousã, saberão perfeitamente de que é que estou a falar.
Termino fazendo referência a um objecto clássico em todas estações da CP: o indispensável relógio de Paul Gaultier, neste caso ausente por nunca ali ter estado, ou por ter sido removido.
Oxalá fosse esse o único elo em falta na cadeia de expectativas da velha linha de caminho de ferro, cuja estação de chegada é como as horas dadas por relógios ausentes, de mostradores com números muito avultados, mas sem ponteiros que esqueceram o que foi o antes e ainda não sabem o que será depois.

Este texto foi publicado no semanário "Trevim" de 14 de Dezembro de 2006, no suplemento comemorativo do centenário do Ramal da Lousã




para ampliar: clicar na imagem



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Domingo, Dezembro 03, 2006

Uma artista de elevado nível que Coimbra faz por ignorar

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À “minha Túlia”, a homenagem simples tão só de uma criança
Este artigo foi publicado no Diário de Coimbra no dia 03 de Dezembro de 2006, no espaço "Temas de Domingo", pg. 20.


Túlia e Inês Paulino

Túlia Saldanha e Inês Paulino, no CAPC, no começo dos anos 80

Carta à minha estimada amiga Túlia Saldanha,

Tenho muita pena de não ter podido estar presente no último encontro que tinha marcado consigo.
Realmente estava mal informado sobre o seu estado de saúde quando vi o anúncio de que iria fazer parte dum painel de especialistas para discutir, no contexto das iniciativas da ARCO em Madrid, as actividades pedagógicas ligadas ao ensino e divulgação das artes plásticas, há cerca de uma dúzia e meia de anos atrás.
Já não pudemos encontrar-nos e tive de conformar-me com a sua ausência devido a motivo de força maior.
A notícia do seu falecimento consternou, como é tão abundantemente sabido, uma boa mão-cheia de amigos desta velha cidade e tantos outros admiradores que, fora dela, tiveram o privilégio de consigo trabalhar e de consigo viver o gosto e a paixão da arte.

Muitos são os eleitos mas poucos os escolhidos

À engenharia das preferências colectivas e das homenagens públicas se pode aplicar a mesma frase que se aplica a muitas outras situações: diz-me como e quanto homenageias e eu dir-te-ei quem és.
Lembro-me disto, Túlia, porque sou reincidente em homenageá-la muito singelamente, por palavras breves mas calorosas de sincera admiração.

Por mim não fica a sociedade em falta consigo em salientar o valor seguro do seu labor metódico ao serviço de toda a cultura e de todas as artes, mas, acima de tudo, ao serviço da arte sem academias, nem medalhas, nem poses estudadas, da sua preciosa dedicação pela sensibilidade das pessoas em si mesmas.
Confesso-lhe que tenho tentado uma e outra vez convencer todas as pessoas com quem converso de que há uma enorme dívida pública para com a lúcida atenção que dedicou às artes, às suas técnicas, ao seu exercício oficinal e, principalmente, à sensibilizada percepção dos seus valores mais profundos.

A Túlia pertencia à rara multidão dos eleitos, mas não granjeou a condição de escolhida, por culpa de modéstia própria e do funcionamento fatal da sociedade em que viveu.

Venho por isso contar-lhe a pequena palavra de uma criança, em substituição de uma grande homenagem institucional, tentando disfarçar o pecado de ocultação que têm cometido todos os seus contemporâneos e sobretudo os que foram testemunhas, utentes e beneficiários directos, individuais ou colectivos, dessa mesma obra e dessa mesma atenção. A homenagem sem preço do afecto de um menino
Além de artista e dinamizadora cultural exerceu a minha amiga a profissão de educadora, actividade da qual foi afastada ao final da sua carreira, por um processo burocraticamente lamentável e verdadeiramente kafkiano que talvez pouca gente conheça.

Anos antes, porém, fora educadora num infantário do qual era utente um filho meu, criança que, como tantas, lutava com certas dificuldades de enquadramento devido à timidez e à incapacidade de reagir perante o meio já agressivo da comunidade infantil. A problemática que viveu foi um tanto perturbadora, sucedendo-se as conjecturas improdutivas de outras educadoras e até da directora do estabelecimento em causa.
A produção de opiniões em nada resultou até que tivemos a sorte de vir para o infantário Túlia Saldanha, que estabeleceu com o menino um relacionamento sem problemas, que conseguiu integrá-lo no colectivo e que fez desabrochar nele a capacidade límpida duma natureza somente tocada de alguma raridade, sem patologias negativas.
A amizade entre menino e educadora, centrada principalmente no trabalho de expressão plástica que desenvolvia, foi tão caloroso que, desde então, Túlia Saldanha perdeu o seu nome artístico para ser bem conhecida entre nós da forma como passou a designá-la esse menino: “a minha Túlia”.

Fique pois sabendo, além disso, que aqui em casa, falando-se de artistas, não viramos todos o rosto para o mesmo lado donde sopra o vento das amenas conveniências da unanimidade.


Artistas, apreciamos todos, e a todos dedicamos a atenção que a obra justifica e merece. Mas não queremos ver na paisagem apenas o lado onde bate o sol das preferências sem questionamentos raros.
E a si, cara amiga, para além do conhecimento que temos da grande obra por si desenvolvida e da sua total indiferença pelas homenagens deste mundo, creia que ficou “a minha Túlia” para todo o sempre, no imaginário de uma pequena família sem importância que rememora o seu trabalho inteligente como um bálsamo, e a sua perspicácia humana como um acto produtor de futuro em harmonia e felicidade.


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