Conversas sobre tudo o que a vista alcança e sobre pinturas também, da autoria de Costa Brites

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Domingo, Março 30, 2008

Exposição Bibliográfica e Documental Luiz Pacheco, na Biblioteca Geral da UC, a não perder

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publicado no Diário de Coimbra de 16 de Março de 2008

Da fachada da Biblioteca Geral pende uma faixa comprida, com a assinatura de Luiz Pacheco. “Eu não tenho imaginação”, é nela declarado pelo escritor, figura tornada fascinante devido à sua desordenada bizarria a que a sociedade conformada e silenciosa que todos nós construímos não tem deixado de prestar um significativo preito de atenção.

Valha-nos o facto saudável desta exposição não ser uma homenagem como tantas, tão pleonásticas, tão fatigantes. É, adequadamente para uma Biblioteca Geral universitária, um registo de presença de um autor problematizante e oblíquo ao conformismo.

A presença na Internet e nos meios de comunicação a respeito do escritor, a que é inteiramente supérfluo chamar “polémico”, é muito abundante e elucidativa, embora os seus livros sejam raros nos escaparates.

A visita à BGUC recomenda-se, e que o visitante não vá com pressa. Que leve tempo para entrar pelas vitrinas com vagar de ler palavras sentidas, testemunhos directos e pungentes da vontade indómita e da palpitação acelerada dum coração inquieto.

Os intervenientes no colóquio que ali teve lugar para inauguração da mesma eram, além de estudiosos, pessoas estreitamente ligadas à pessoa e à obra do artista. Um deles, seu filho, falou não omitindo nem iludindo essa qualidade, mas declarando-se primordialmente como seu leitor e admirador.

Todas as participações foram abundantemente elucidativas, mas a respeito de um outro Luiz Pacheco, diferente do que nos é apresentado como caricatura dele mesmo, ao arrepio da sua verdade essencial de escritor, crítico, editor e semeador de inquietações.

Afirmou o artista, portanto, que não tinha imaginação. Um dos participantes explicou, ao abordar a diferença essencial entre os “escritores da memória” e os “escritores da imaginação”, que isso se deveria ao facto de que a própria vida por ele vivida já era o bastante para satisfazer a sua vontade de intervir, o seu sentido de missão e de projecto, o seu peculiar sentido de liberdade.

“A imaginação é a minha vida”, dizia Pacheco, acrescentando noutra altura a respeito de si mesmo que “a minha escrita é o meu real”.

Outra coisa disse também: “Não há escritores malditos, há é escritores mal escritos”.

Os seus mais próximos conhecedores consideram-no não um marginal, mas um praticante de “uma escrita de estrutura eminentemente clássica, com delicadas subversões”. No exercício da sua actividade de editor revelou sempre um cuidado meticuloso em todas as tarefas levadas a cabo, integralmente exigente na escolha das obras para publicação, todas elas dentro do critério da criação artística e nunca no da escrita de largo consumo. Raul Leal, Natália Correia, António Maria Lisboa, Herberto Hélder, Vergílio Ferreira, Mário Cesariny, entre outros, foram autores que publicou.

Se o leitor tomar a decisão de visitar esta exposição, e acho muito bem que o faça, pode consultar antes a elucidativa documentação publicado sobre este acontecimento no site da BGUC, em: http://www.uc.pt/bguc/luizpacheco.

Domingo, Março 02, 2008

A Galeria Sete, Ases & Trunfos em exposição e equipamento cultural em projecto

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Publicado no Diário de Coimbra

Foi publicada recentemente a emocionante notícia de que a Galeria Sete irá meter ombros à construção de um espaço cultural numa zona adjacente à Avenida Elísio de Moura, situada ao lado direito de quem sobe, no vale verdejante ainda com antigas terras de cultivo.

Muito emocionante para mim, dado que resido nas imediações, e naturalmente emocionante para todos os que se interessam pela arte e pela cultura, onde quer que se encontrem.

O facto de ser visitante regular da galeria, acompanhando por gosto o que ali se fez desde o seu início, permite-me concluir que o projecto já aprovado vai ser um passo em frente em termos gerais de cultura, não admirando que as artes plásticas ali venham a beneficiar de particular incidência.

Sem ser apreciador do cerimonial das inaugurações, deixo-me tentar por visitas mais tranquilas e contemplativas, sendo a exposição que ali se encontra neste momento – Ases & Trunfos – uma revisão abrangente de opções e personalidades estéticas especificamente interessantes, caso a caso.

Passando pela montra somos literalmente “arrastados” para dentro da galeria pela tela de Francisco Relógio, artista já desaparecido que foi expoente dum talento raro, fortemente ligado às sensibilidades dum tempo e de uma cultura muito específicos. Para além da frontalidade simbólica com que nos confronta, amadurece com os anos. Merece, por isso, um olhar lavado de preconceitos datados, devido às suas qualidades de expressão plástica que servirão noutros contextos, e sempre, como eco de um apelo intenso e luminoso, entre rosto e alma, entre terra e sol.

Ao lado, João Vieira está presente com uma das suas pesquisas de consagrado valor intelectual, massas complexas de cor arrastadas por compressão que configuram, mais do que ideogramas, fantasmagorias de teor semi-caligráfico, quase-máscaras ou quase-rostos monumentais.

De outros artistas representados permito-me referir, de memória, José de Guimarães, Pedro Poença e os trabalhos ainda presentes duma recente exposição individual de Noronha da Costa que a Galeria Sete organizou, como importante testemunho da sua evolução recente.

José de Guimarães representa-se com um trabalho demonstrativo da sua prática de construir os elementos de suporte das obras que executa, muitas vezes situadas entre a pintura e a escultura, e que associam o mistério distante da complexidade ancestral às sínteses mais intensas da modernidade.

Pedro Proença, duma geração mais nova, evidencia em tudo o que faz uma prolífica veia criativa, quer do ponto de vista da construção imagética, sempre duma invenção caudalosa, quer mediante o uso da palavra escrita que, no caso presente, se encontra em evidência sobre o próprio corpo da pintura.

Estão ainda presentes um número significativo de peças, todas claramente referenciáveis aos respectivos autores pelas suas qualidades expressivas, como um desenho de Vieira da Silva de 1945, particularmente intenso na simbologia do transe conflitual de que é testemunha; um guache de 1980 com a marca peculiar do gesto de Manuel Cargaleiro, cujo trajecto assinala uma forte presença na área da azulejaria; obras de Cruzeiro Seixas, Mário Botas, Mário Cesariny, entre outros.

A par destes exemplos, vários outros seria de acrescentar, de diferentes gerações de criadores e de diversas escolas de expressão, não havendo aqui possibilidade para isso, nem sendo meu propósito substituir-me à visita mais abrangente que o leitor irá procurar fazer, caso não o tenha feito já.

Visite entretanto o bem documentado site da galeria que encontrará no seguinte endereço: http://www.galeriasete.com/.

Caminhando pela baixa de Coimbra, com exposição de fotografias de Edgar Martins, no CAV

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Publicado no Diário de Coimbra de 27 de Fevereiro de 2008

A única coisa que a baixa de Coimbra não precisa é de que venha acrescentar-me ao número daqueles que tão lamentosamente debatem a sua decadência.
Só me ocorre dizer que, para além de todos os problemas que são ventilados por muitas outras pessoas muito melhor do que eu, a baixa também é uma questão de opção e de cidadania.
Se quiser ir à baixa, vou.
Se a oferta de serviços, se os locais de convivência e de cultura, se os estabelecimentos com rosto humano me convierem, porque não na baixa?
E é isso que faço, em dia de Sábado à tarde, a pé e levando comigo (além da melhor companhia…) aquele vagar que também inclui olhos para ver as coisas como se fosse pela primeira vez.
Depois de sair de Montarroio entramos no “Pátio”, damos a volta a um taipal de obras − das muitas que há por todo o lado ¬− e entramos no espaço do CAV, Centro de Artes Visuais.
A exposição que se mostra ao entrar é de fotografias de Edgar Martins, acontecimento que requer uma atenção e um vagar muito específicos, e proporciona um intenso prazer desde o primeiro instante.

numa tarde de luz tão ternamente atlântica

Compro o catálogo bilingue e cedo por momentos à tentação de mergulhar alternadamente na versão portuguesa e na inglesa, parecendo-me especialmente interessante o trabalho de tradução, facto que nem sempre ocorre em tais edições.
A visita, contudo, obriga-me a deixar a leitura para depois.
O modo como é feita a colocação dos títulos, embora não sendo de ignorar, é rapidamente abandonada, dada a evidente relação que os diversos ciclos de imagens mantêm entre si, quer por efeito de semelhança, quer por efeito de contraste.
Nesse sentido a organização da exposição é muitíssimo estimulante, porque permite ao visitante aperceber-se da coesão que as diversas séries sustentam em si mesmas, sem deixar de oferecer momentos de contraste e tensão, valendo a visita dos espaços não somente pelas peças isoladas como pelas confrontações respectivas.
Esta estratégia expositiva tem as suas excepções, das quais me atrevo a salientar o caso da última sala, em que a obra apresentada nos colhe com emocionada surpresa, dado o grau de familiaridade subjectiva (ou contraste plástico-simbólico), existente entre a matéria que nos dá a ver e a própria estrutura construtiva do espaço envolvente.
Para além do esplêndido apuro formal das obras apresentadas, que em certos casos restringe ao mínimo o conjunto de dados que são oferecidos à observação, existe como uma espécie de equívoco ou mistério na organização da paisagem que suscita uma análise dos mínimos sinais disponíveis, contendo cada um uma intensidade particular que reforça a coerência do todo.

uma multidão de gaivotas descansa sobre o artificial Mondego

A entrada surpreendida numa exposição de tão elevado teor de qualidade não é facilmente compatível com a apreensão imediata de todas as razões e conceitos que animam o labor do artista, para mais tão longamente fundamentados. Mas configuram uma oportunidade a não perder e, já agora, analisamos mais um pouco um dos fenómenos visuais em evidência. Largas superfícies de cor densa apresentam a espessura que nenhum fenómeno natural em si contém, a não ser no conceito abstracto da própria ausência.
Um negrume tão intenso que, revelando aqui e ali sinais imprecisos, ou misteriosos, ou intensamente solitários, é essencialmente uma acentuação de tudo o mais que a vista alcança. Nuns casos apreciamos uma noite que não é, noutros um regato que se mostra como se fosse uma nuvem, noutros uma superfície líquida que se transforma noutro céu sobre o qual flutua a enorme massa de um iceberg escultórico, citação das tumultuosas paisagens glaciares de Caspar David Friedrich.
As breves observações que aqui deixo a respeito da exposição de Edgar Martins não esgotam o muito que dela poderia dizer-se.
Durante a visita valeu a boa companhia que me levava para aquecer as salas arrefecidas de gente. E para entender melhor aquelas pequenas e grandes coisas que um olhar amigo vê mais esclarecidamente do que todas as palavras ditas.

caminhar é preciso

O espaço mais densamente frequentado que atravessámos no doce fim de tarde, foi o do parque da cidade. Chusma de automóveis no parque de estacionamento. Os mesmos que vão desandar dali para as grandes superfícies, poluindo tanto ao Sábado e ao Domingo como nos outros cinco dias.
Os meus compatriotas têm uma grande dificuldade em andar a pé, e os transportes públicos ao Sábado e ao Domingo são ainda muito menos amigos que durante a semana.
Vir a pé à baixa, Sábado à tarde, pode muito bem ser um sonho frustrante ou uma cansativa peregrinação.
Mas temos a intenção de persistir nesse hábito.
Embora nem tenhamos o colesterol alto.

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