Conversas sobre tudo o que a vista alcança e sobre pinturas também, da autoria de Costa Brites

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Terça-feira, Abril 22, 2008

O “Jardim da Água” nas Caldas da Rainha e a obra artística de Ferreira da Silva

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Ferreira da Silva
painel de azulejos, IPO/Coimbra
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Quem primeiro me falou, já há alguns anos, acerca do artista Ferreira da Silva, foram os profissionais de azulejaria da região de Alcobaça, Porto de Mós e Caldas da Rainha. Trata-se de uma figura por todos conhecida, rodeando o seu nome uma aura de elevado respeito e consideração pela sua obra.
Um dia, o meu amigo Alcino Vala, do Juncal de Porto de Mós, que exerce o mesmo ofício que os azulejadores de fins do sec. XVIII que ali produziram, entre muitos outros, os painéis de azulejos que estão na sala dos Reis no Mosteiro de Alcobaça, levou-me propositadamente até ao Hotel da Quinta do Pinheiro, no Valado dos Frades, onde há um significativo conjunto de trabalhos de autoria de Ferreira da Silva, às quais novas encomendas se vieram juntar recentemente, numa louvável atitude de enriquecimento patrimonial daquela instituição.
Tive mais tarde a ocasião de publicar no Diário de Coimbra um comentário detalhado a respeito do notável conjunto de painéis seus que se encontram no IPO em Coimbra, quer à entrada, quer no seu interior.
Fora entretanto às Caldas da Rainha, para me encontrar com o Mestre, o que me deu a grata oportunidade de conhecer, além de outras intervenções suas de valiosa importância, o empreendimento público que ali desenvolve, com arrastadas intermitências, por iniciativa do Centro Hospitalar da cidade e que tem a designação de “Jardim da Água”.
É muito ingrato para mim falar num espaço tão reduzido a respeito do labor deste notabilíssimo artista detentor, além do mais, de uma personalidade forte e distanciada de toda a trivialidade, do exibicionismo fácil e da reverência conveniente.
O artista Ferreira da Silva é conhecido por um grande número de intelectuais e artistas do grande mundo, com os quais ombreou em talento e representação cultural. A personalidade que o caracteriza, contudo, fez dele um homem enraizado no labor oficinal que sempre tem desenvolvido com a maior eficácia criativa e infatigável persistência experimental. Detentor de uma cultura universalista, ecológica e poética, de grande independência, aprecia os espaços livres, o mundo das origens, os princípios e a liberdade inicial em clima que gosta de designar como “saudade do arqueo-sítio”.
São numerosas as obras que foi produzindo no domínio das artes do fogo, estando espalhadas pelo mundo uma grande quantidade delas, na posse de notáveis coleccionadores.



Ferreira da Silva
O "Jardim da Água", Caldas da Rainha



O Jardim da Água é um espaço cénico e um percurso pedonal que tira partido de um conjunto de materiais pré-existentes e de estruturas de encaminhamento de águas termais, aos quais se acrescentam multifacetados recursos de originalidade e um sentimento criativo sem peias.
É uma obra dominada por um empolgante sentimento de utopia, destinada a fornecer um permanente espectáculo de águas rumorejantes, circulando através de planos diversificados, animado dos mais diversos efeitos de cor e luz.
A estrutura geral de suporte associa à solidez do betão uma libérrima multiplicidade de planos com intenso dinamismo escultórico, sobre os quais a cerâmica, o vidro, o ferro e outros materiais ganham significados novos, amplificantes do seu usual valor.
Faço os mais sinceros votos para que as contradições que se adivinham por detrás da hesitante marcha dos acontecimentos não demorem a conclusão de uma iniciativa sem qualquer paralelo em meio urbano e de invulgar expressão estética, que tanto tem a ver com o legado histórico e cultural da cidade em que se encontra.

Este texto foi publicado na Revista de Informação do Sindicato dos Bancários do Centro, de Janeiro/Fevereiro de 2008

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Domingo, Abril 20, 2008

Augusto Mota, o olhar do pensamento e a novidade do que é eterno

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Desenho da autoria de Augusto Mota, de fim dos anos 60, para uma das muito conhecidas capas da Livraria Martins, de Leiria
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Este texto foi publicados na Revista de Informação do Sindicato dos Bancários do Centro, de Março/Abril de 2008

Um dos perfis que mais se destaca nas memórias que tenho da minha Leiria dos anos 50 e 60 é o do artista e cidadão Augusto Mota, pelo modelo de pensamento e pelo exemplo construtor de energias criativas que colocou ao meu alcance e de tantas outras pessoas da mesma geração.

Licenciado em Filologia Germânica ensinava artes visuais na chamada Escola Industrial e Comercial. Essa aparente contradição sinalizava a abrangência de culturas e de capacidades diversas, numa síntese produtora de entusiasmo criativo e na concepção do maravilhoso da vida como contingência possível.

Tive o privilégio de ler muito cedo o notabilíssimo trabalho de tese que fez sobre a obra de Aldous Huxley, numa idade em que o interesse pelo mundo e pela vida tinha consigo a tal crença inicial que acelera a chegada do futuro sem que o facilite, envolvendo-o – não obstante – pelo arco-íris de expectativas plenas de convicção.

Desde a utopia franca duma obra como “A Ilha” às perspectivas impiedosas de um “Admirável Mundo Novo”, agora muito mais próximo de todos nós, senti-me impulsionado em direcção a um entendimento da vida e do mundo cujos limites não se esgotaram jamais.

Tal como William Blake, cuja obra teve inicialmente como projecto de tese, também Augusto Mota evidencia uma abrangência de criatividades distintas, ao jeito das grandes fi guras do humanismo renascentista. Como criador plástico trouxe ao meio em que vive uma grande variedade de sugestões completamente novas, a partir do próprio conceito da condição social do artista como agente de transformações essenciais.

“O futuro não precisa de quadros: precisa de Cidades que os Homens possam habitar humanamente”, disse desde os seus começos, na propensão assumida de rejeitar as atitudes mais formalmente académicas, em benefício de oportunidades abertas ao alcance da maioria. A arte nos objectos e atitudes do quotidiano e na pesquisa sensata e elegante das melhores soluções para todos os problemas da sociedade.

Figuras como Augusto Mota deveriam ser utilizadas mais amplamente pela nossa sociedade em seu próprio benefício. O poder e os seus interesses imediatistas têm dificuldade em entender tais valores, o que configura uma das piores tendências da sociedade em que vivemos: a exaltação da trivialidade e a legitimação do que é medíocre.

No último período da sua actividade como professor do ensino secundário (aparentemente, no nosso país só há professores no ensino secundário!...) provou os amargos frutos dum já antigo e hipocritamente escamoteado apodrecimento dos ambientes lectivos.

Reformou-se dessa actividade em tempo próprio, mas não abandonou a procura de valores e o cultivo de formas específicas de intervenção cultural, de que continuo, felizmente, como espectador privilegiado.

Sempre que olho a frescura de inspiração de tantas das suas obras invade-me um entusiasmo poético tão intenso como aquele em que as vi pela primeira vez.

Inesquecível é, contudo, o políptico das “Tentações de Dona Urraca”, desenho a traço simples que perfeitamente sugere o universo da cor, pleno de ironia teatral e truculência ingénua que não assustam, antes inspiram quem as vê.

Revelação de entidades misteriosamente familiares oriundas dum sonho sem idade, águas impolutas e frescas de um rio sereno sem margens.


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